A decisão do deputado federal André Fufuca (União Progressista) de devolver os cargos que mantinha na estrutura do governo Carlos Brandão, incluindo posições estratégicas no Detran e na Sagrima, trouxe para o centro do debate uma contradição política que há muito tempo salta aos olhos dos maranhenses: a permanência dos espaços de poder ligados ao deputado federal Duarte Júnior (Avante) dentro da administração estadual.
Enquanto Fufuca optou por uma postura coerente diante da reorganização das forças políticas para 2026, Duarte segue tentando equilibrar-se entre dois palanques. De um lado, ensaia uma aproximação cada vez mais evidente com o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), chegando ao ponto de se oferecer para compor uma aliança e disputar o Senado com o apoio do grupo político liderado pelo prefeito e pela prefeita de Paço do Lumiar, Esmênia Miranda (PSD). De outro, mantém intacta sua influência dentro do governo Brandão.
O problema não é apenas político. É também moral e simbólico.
Duarte tenta vender uma imagem de independência, como se estivesse distante do Palácio dos Leões. Porém, os fatos mostram o contrário. Sua principal base de influência dentro do governo continua sendo o Procon-MA, comandado por sua esposa, Karen Barros, além de indicações políticas em setores importantes da saúde pública, incluindo unidades de pronto atendimento na Grande São Luís.
A situação cria um constrangimento difícil de ignorar. Enquanto Duarte faz acenos públicos ao grupo de Eduardo Braide e busca construir um projeto político alternativo ao do governador Carlos Brandão, sua esposa permanece ocupando um dos cargos mais relevantes da estrutura estadual. Todos os dias, Karen Barros exerce uma função de confiança delegada pelo governador, enquanto seu marido atua politicamente como se não tivesse qualquer vínculo com o governo.
A incoerência é evidente. Se Duarte realmente acredita que seu futuro político está ao lado de Braide, o gesto mais honesto seria seguir o exemplo de André Fufuca e abrir mão dos espaços que controla na administração estadual. Permanecer usufruindo da estrutura do governo enquanto trabalha por uma aliança política alternativa transmite a sensação de oportunismo e conveniência.
Na política, gestos possuem significado. E, neste momento, a permanência dos cargos ligados a Duarte Júnior no governo Brandão comunica exatamente o oposto do discurso que o deputado tenta sustentar publicamente. Não há independência quando se mantém influência, cargos e poder dentro da máquina estatal. Não há rompimento quando os benefícios políticos continuam preservados.
O resultado é um desgaste crescente para todos os envolvidos. Para o governador Carlos Brandão, que mantém em sua estrutura aliados de um político que flerta com a oposição. Para Karen Barros, colocada involuntariamente no centro de uma contradição política desconfortável. E, sobretudo, para o próprio Duarte Júnior, que cada vez mais enfrenta dificuldades para convencer a opinião pública de que está onde diz estar.
A política exige escolhas. E a tentativa permanente de permanecer em dois lados ao mesmo tempo costuma terminar da pior forma possível: sem credibilidade em nenhum deles.

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